O preconceito muitas vezes pode estar camuflado pela falta de fé. Incredulidade até mesmo nas promessas e no amor incomparável de Deus 



A tentativa frustrada de aborto deixou nela uma sequela irreversível, a síndrome de talidomida. Comprometendo principalmente o desenvolvimento das suas pernas. A Missionária Luciana Pereira Barroso de Alcântara, 41 anos e o seu marido, Pr. Marcelo Barroso de Alcântara, 40 anos, relatam como a fé, o amor e uma extraordinária força de vontade, transpõem as duras barreiras do preconceito. Hoje ela corre ha 40 kms por hora num skate elétrico o qual foi presenteada e fez questão de inaugura-lo na orla da lagoa da Pampulha. Ela senti a velocidade por todo o seu corpo, o vento no rosto e se emociona ao testemunhar o cuidado de Deus em realizar os seus sonhos. O casal tem dedicação exclusiva para o ministério, são pastores evangelistas itinerantes da Batista Getsêmani e por onde passam, é notório o fluir da presença do Espírito Santo e da sua incomparável graça.


1 - PODE NOS DESCREVER A RESPEITO DA SUA DEFICIÊNCIA E COMO FOI A INFÂNCIA?

MISS. LUCIANA: Sou vítima de talidomida. Uma tentativa de aborto mal sucedida da minha mãe. Quando nasci fiquei muito tempo internada, das vítimas de Talidomida apenas 50% sobreviviam, por causa da deformidade dos órgãos internos e dos órgãos inferiores. A mesma mãe que tentou me abortar, depois me amou de tal forma, que ela passou a lutar por mim. Ela não me deixava ficar em casa trancada. Sempre saía pra passear comigo. Me recordo uma vez que ela me levou na praça da liberdade, ela levava a cadeirinha de rodas e o velotrol nas costas. Chegando lá eu não queria brincar, ela me olhou nos olhos e me disse "tá vendo aquele monte de crianças? Daqui a pouco você estará liderando esta brincadeira, basta apenas você demonstrar um sorriso. O seu sorriso é lindo! A vida pode ter te tirado as perninhas, mas, Deus te deu um sorriso maravilhoso!" Minutos depois eu já estava na frente liderando a brincadeira com as outras crianças. Ela sempre me impulsionava, não me deixava estagnar.

2 - PODE NOS CONTAR ALGUMA EXPERIÊNCIA MARCANTE DE PRECONCEITO NA SUA VIDA?

MISS. LUCIANA: Quando eu comecei a estudar não tinham escolas especiais próximas a mim e a escola pública não aceitava crianças com o meu perfil. Havia me mudado para Santa Luzia e uma escola pública estava recém inaugurada. Fui junto com os meus coleguinhas da rua pra esta escola. Me colocaram na sala de aula e eu já sabia ler escrever, sabia o abecedário todo! Minha mãe desceu a rua me procurando. Quando ela chegou na sala de aula, disse pra professora que eu tinha fugido de casa e que estava me procurando. A professora respondeu pra minha mãe, "ela vai ficar aqui, ela já sabe ler, está se saindo muito bem!" Assim, eu ingressei na escola e comecei a estudar. Minha mãe saiu assustada da sala de aula, sem acreditar no que estava acontecendo. Em pouco tempo, enfrentamos uma situação difícil, oito mães se levantaram contra nós. Elas não me aceitavam, me consideravam uma aberração que causava transtorno aos seus filhos, disseram que fazia mal às outras crianças me verem daquele jeito. Minha mãe lutou por minha permanência na escola. E o principal, quando Deus quer que você cresça, Ele já tem um plano pra sua vida! A diretora da escola comprou a nossa briga, declarando que essas mães poderiam sair com os filhos, que a escola era pública e ela não lutaria pra me retirar de lá!

3 - PRA VOCÊ A ADOLESCÊNCIA FOI UMA FASE MUITO DIFÍCIL? 

MISS. LUCIANA: Na adolescência você que ser diferente, mas, quer estar no grupo. Comecei a lidar com frustrações, depressões e até auto preconceito. Sofria muito bullying na escola. Os adolescentes não queriam conversar comigo porque eu era a mais “inteligente do Raul Teixeira”. Eles me rotularam assim. Sei que na verdade, era preconceito. Eu vivia à margem deles e o inimigo foi trabalhando na minha mente, pra que eu ficasse trancada, depressiva e diminuísse meu interesse pelos estudos. Eu não conhecia Jesus e dei lugar para a rebeldia. Em todos os lugares que eu ia, na verdade, por onde eu vou até hoje, as pessoas me olham. A sociedade te olha com olhos de julgamento, e nessa época, eu morria de vergonha.

4 - COMO FOI O SEU ENCONTRO COM CRISTO?

MISS. LUCIANA: Quando aceitei a Jesus já tinha o meu primeiro filho, o Eduardo que hoje tem 18 anos. Uma pessoa de uma igreja me falou de Cristo e então o aceitei e levei o meu filho comigo pra igreja. Mas, vivi preconceitos do mesmo jeito. Havia uma separação de grupos, solteiros, jovens, casados e queriam fazer um grupo de deficientes. Isso me magoou muito e saí da igreja. Fiquei dez anos fora do evangelho. Pensava que se Jesus veio pra fazer a diferença, para amar e aceitar, por que tal divisão? Na verdade, era uma forma velada de preconceito. Tive a minha filha Aline, hoje com dez anos, em mais uma tentativa de ser feliz que não deu certo. Estava muito sofrida e então voltei para os caminhos do Senhor. Vivia uma vida de festas. Saía na ilusão de interagir com pessoas e encontrar alguém que me amasse de verdade. Foi quando fui ao meu extremo e me firmei com Cristo como nunca! Me posicionei como uma mulher de Deus, perseverei em oração e jejum, foram sete anos assim. Nesse período eu ouvi as promessas de Deus pra mim, sobre o casamento com um homem de Deus que viria de longe! Tinha fé, mas as próprias pessoas de dentro da igreja muitas vezes tinham uma palavra de desânimo. Cheguei a ouvir que deveria desistir de orar por um casamento, por uma família. Que eu poderia pedir um carro, uma casa, mas, que deveria desistir de orar por um casamento. Eram matadores de sonhos!

5 - COMO É PARA O CASAL, A CONVIVÊNCIA NO DIA A DIA E O MINISTÉRIO? 

PR. MARCELO: A limitação é apenas exterior, não é uma limitação intelectual. Ela sabe se expressar e é muito inteligente. Faz a edição de Dvd's, aprendeu como autodidata, sabe elétrica e até resolvia problemas mecânicos de um carro adaptado que ela tinha! Passou de primeira para tirar habilitação e é a única mulher que conheci que tinha uma caixa de ferramentas! (risos). Aprendo e aprendi muito com ela! Fez ensino técnico em contabilidade e foi condecorada a aluna mais esforçada da turma. Tinha que subir e descer os 35 degraus do lugar aonde estudava. Pegava quatro ônibus pra ir e voltar à igreja. Trabalhou na prefeitura por 17 anos, ela é perseverante, lutadora. Diferente daqueles que não tem limitação física e desistem diante dos obstáculos.

6 - MISSIONÁRIA, DE ONDE VEM TANTA FORÇA DE VONTADE? 

MISS. LUCIANA: A minha vida eu dedico a Deus. É Dele, e por Ele que vem essa força! Poderia me trancar num quarto e não querer viver, mas, Ele me deu livre arbítrio e ainda me disse: “Vai que eu sou contigo!” É a mensagem que transmito para as pessoas, para que elas nunca desistam dos seus sonhos! O maior vencedor é aquele que não desiste do que ele quer! Assim como os nossos dedos não são iguais, precisamos aprender a lidar com as diferenças uns dos outros. Sejamos líderes ou ovelhas é preciso esse respeito, por que Jesus é amor e nos amou. Ele diz "vinde a mim vós que estais cansados e eu vos aliviarei". Então ele livra as nossas vidas dos fardos, do preconceito, dos complexos de inferioridade. Pra mim não foi fácil lidar com tantos obstáculos, eu me emociono por que sou grata a cada momento da minha vida, por tudo que vivi, vivo e ainda vou viver. Quando sonhava em ter uma família, tentaram matar os meus sonhos. Só respondia, você pode não acreditar, mas, eu tenho fé pra mim e pra você que Deus trará a existência o que não existe! Passei muitas noites chorando eu e o travesseiro, às vezes a fé faltava, mas, o Espírito Santo é quem aviva em nós essa esperança. O choro pode durar uma noite, mas, a alegria vem ao amanhecer!

7 - CONTE-NOS COMO FOI O ENCONTRO DE VOCÊS E O NASCIMENTO DO ISAQUE, HOJE COM 11 MESES!

MISS. LUCIANA: Conheci o Marcelo em um site evangélico. Os mistérios de Deus é só pra quem vive mesmo, cadastramos no site na mesma data! Eu aqui em BH e ele lá no Ceará. Ficava me perguntando de onde será que esse homem virá, como vou conhece-lo? Entrei curiosa nesse site e em seis meses, o conheci. Então ele veio para Belo Horizonte e superamos muitas dificuldades. Era difícil acreditarem que ele queria se casar com uma mulher assim como eu. Diziam que ele tinha que escolher uma mulher bonita. Eu respondia que sabia que eu era bonita e que também sabia o que tinha orado e pedido a Deus.

PR. MARCELO: Foi um período difícil e de rejeição. Tive que enfrentar situações que nunca imaginei. Compareci a uma delegacia e até diante de uma Juíza para provar as minhas reais intensões com ela. Eu não queria tirar proveito nenhum dela, muito pelo contrário. Sobre o nascimento do nosso filho, tive um sonho com uma criança branquinha numa casa grande. Já tínhamos mais de um ano de casados. Não achávamos que ela engravidaria. Eu queria muito ter um filho! O Isaque é uma confirmação de Deus pra nós como família!

8 -  O QUE SONHAM E PROJETAM PARA O MINISTÉRIO DE VOCÊS? 

Pastor Marcelo: Orávamos muito pra Deus levantar um Barnabé, um pastor que reconhecesse o nosso ministério. Sou bacharel em teologia e meu ministério é itinerante. Quando visitamos a Batista Getsêmani, contei pra ela que já tinha sonhado com a igreja quando ainda morava lá no Ceará. Disse pra Luciana, Deus tem algo conosco aqui. E assim, Deus colocou amor no coração do Pastor Jorge Linhares por nossas vidas, um homem sensível a voz do Espírito Santo. Hoje temos agenda nas missões da Getsêmani, pra vários meses e temos visto o que Deus tem feito em casais através do nosso testemunho. Nosso ministério está apenas iniciando. Por meio das nossas vidas veremos ainda muitas pessoas se converterem a Cristo, serem edificadas e casamentos serem transformados! Ainda iremos a outras nações levando este testemunho, para que creiam que Deus opera milagres extraordinários e inimagináveis. Aleluias!