QUANDO A FÉ FALA MAIS ALTO E O MILAGRE ACONTECE

A primeira e a última coisa que se aprende em uma faculdade de jornalismo é ser imparcial no trato da notícia. Para você que começa a ler e tem essa expectativa, já informo que este texto não é exatamente imparcial. Mas o convido a ler mesmo assim. Sou o repórter e, em certo ponto, personagem. E escrevo sobre os piores 25 dias de nossas vidas em uma perspectiva que permeia a fé e a medicina – tomo a liberdade de utilizar os pronomes no plural e incluir aqui algumas pessoas que viveram tudo de perto, como se escrevêssemos juntos.

 

QUARTA-FEIRA, 11 DE ABRIL DE 2012. Levamos Dominique, minha filha de dois anos, ao plantão por causa de uma febre. Consultada, o médico não conseguiu diagnosticar por causa do pouco tempo de elevação da temperatura.

SEXTA-FEIRA, 13 DE ABRIL. Sem que a febre cedesse, fomos novamente ao médico. Ela apresentava vermelhidão na garganta, febre, mas não possuía sinais de secreção visíveis no nariz ou audíveis pela ausculta pulmonar. Um xarope foi receitado.

SÁBADO, 14 DE ABRIL. Já tarde da noite, com febre que chegava a 39,5, o plantão médico foi nossa direção. Um pedido de exame de sangue foi feito e o resultado não apresentou nenhuma alteração que indicasse alguma doença mais grave. Aí sim, um pedido de raio X. A madrugada do dia 15 de abril foi interminável. Passei praticamente acordado, levando Dominique da cama para a cadeirinha de que tanto gosta. A respiração estava difícil e tínhamos que dar remédios de três em três horas para controlar a febre. Deitei-a em minha cama e ela conseguiu dormir um pouco. Pela manhã, acordei, olhei para o lado e a vi quase sem nenhuma respiração, com a barriguinha muito inchada e de uma forma que nunca havíamos visto: quietinha, sem ação. Sempre com aquele sorriso lindo, dando o “bom dia” mais gostoso e acordando todos em casa, neste dia ela não foi nosso despertador.

Antes do almoço, Dominique já estava internada por causa de uma pneumonia que já tomava todo o pulmão esquerdo e já havia provocado um derrame pleural. “Não podemos mentir para vocês. A situação é grave e ela corre risco de vida”, nos informou um dos pediatras. Mais doze horas sem intervenção médica e teríamos perdido um dos maiores tesouros de nossas vidas. Imediatamente, a pediatra cirurgiã encaminhou para o bloco cirúrgico, onde um dreno foi inserido no pulmão com o intuito de retirar a enorme quantidade de secreção.

“Boa tarde nada boa! Acabo de internar minha filha de dois aninhos com pneumonia. Informo com o propósito de pedir a todos que orem ou que, da melhor forma possível, direcionem uma corrente positiva à Dominique. Tenho certeza que rapidinho estaremos de volta. Afinal, como diria Carolina Padrão (mamãe da Dominique), Deus está à frente (e no comando). Grande abraço!”. Esse foi o meu clamor logo no primeiro momento na principal rede social do planeta, o Facebook. Solicitar a presença

de Deus por meio das orações de todos para que nossa princesa saísse da primeira provação de sua vida.

 

FÉ E RAZÃO

 

“Quanto mais acredito na ciência, mais acredito em Deus”, disse Albert Einstein em determinado momento de sua vida. Afinal, fé e ciência devem se distanciar ou se complementar? Mesmo diante da razão sendo base para o processo de construção científica, há estudos que mostram a relação entre fé e cura, principalmente pelo fato de o paciente ter confiança em si mesmo, no médico e em Deus.

“Eu prefiro acreditar que fé e ciência são amigas. Deus é o mesmo que criou o ser humano. Deus é o mesmo que capacita o cientista para pesquisar a realidade e Deus não se contradiz. Não há conflito, de modo algum”, afirma o pastor Israel Belo de Azevedo, pertencente à Igreja Batista. “A Bíblia nos mostra que o cosmo é o teatro da glória de Deus. Que um laboratório de pesquisa científica pode ser o espaço da presença de Deus porque a Bíblia diz que Deus criou tudo o que há nos céus e na terra. No entanto, o modo como Deus criou o céu e a terra é uma tarefa que cabe aos cientistas desvendar”, completa.

 

O DIA MAIS FELIZ DE MINHA VIDA

 

O dia 15 de abril foi apenas o primeiro de 25 dias de muito sofrimento – e um dia de intensa felicidade – para toda a nossa família. Logo no primeiro dia ficamos sabendo que Dominique precisaria fazer uma transfusão sanguínea, o que nos abalou muito por ter revelado ainda mais a gravidade da situação. Foi aí que começamos uma campanha e doze pessoas estiveram no Hemominas e doaram vida não só à nossa princesa, mas para diversas outras pessoas que precisavam. Eu mesmo fui um deles. Nunca havia doado. E hoje percebo a grande importância desse gesto. Você já salvou uma vida hoje? Você tem essa oportunidade e não precisa passar pelo que passamos para saber a importância desse ato.

Durante os dez dias iniciais foram feitos os tratamentos com diversos antibióticos e com o dreno para retirada da secreção. Os primeiros dias foram os piores. Não víamos melhora já que os remédios só começariam a fazer efeito 72 horas depois. Mas justamente no quarto dia, depois de um raio X, o médico nos informou que o quadro estava pior. Não melhor como esperávamos. A partir desse momento, começou-se a ventilar necessidade de uma cirurgia com o objetivo de limpar o pulmão.

Nesse percurso, Dominique precisou fazer outro procedimento cirúrgico para recolocação do dreno que havia soltado.

O que mais nos impressionou em todo esse período foi a força com que nossa “filhota” passou por tudo isso. Nesse dia, a caminho do bloco, ela disse: “Mamãe, eu já volto tá?”. Nunca aprendi tanto em tão pouco tempo. Com a pretensa intenção de ensinar o que penso saber da vida para minhas filhas, uma guerreira dentro de casa me ensinou a vencer batalhas com grande maestria.

A bactéria que atacou o pulmão da Nique havia ficado resistente aos antibióticos que estavam sendo prescrevidos. A cirurgia foi mesmo necessária e foi realizada no dia 30 de abril. Foram quatro horas dentro do bloco cirúrgico. Foram quatro horas angustiantes. As enfermeiras tentavam nos tranquilizar dizendo que era uma cirurgia feita rotineiramente. Depois que tudo passou, fomos informados pelo médico cirurgião que de tão grave, ele havia feito apenas duas intervenções desse tipo em crianças em dois anos. Mas tudo correu muito bem.

Ela saiu do bloco e foi encaminhada imediatamente para a UTI Neonatal para observação nas primeiras 24 horas. Foi literalmente “retirar com mão”. A partir desse momento, o quadro evoluiu de forma positiva e rapidamente. Só o sorriso que ela começou a esbanjar três dias depois já indicava melhora. O apetite também voltou e sua personalidade forte também.

 

QUINTA-FEIRA, 10 DE MAIO DE 2012. Dominique de Azevedo Padrão recebeu alta do Hospital Nossa Senhora das Graças marcando este como o dia mais feliz nesses 28 anos de minha vida. Nesse período, aprendi e descobri algumas coisas e uma delas é que posso aprender muito mais com minhas filhas

do que ensinar. Envelheci uns dez anos com uma única experiência de vida. Nique me ensinou a fazer muito mais do que faço hoje, exatamente agora, e com uma força que às vezes se torna nossa única opção. Percebi também que negligencio pequenas coisas que podem salvar vidas e que o amor pode crescer ainda mais em meio a dor. E Deus? Deus às vezes nos pinça do mundo para nos ensinar a quê dar valor, já percebeu? Ah, e ele fez uma milagre em minha vida. E pode fazer na sua também! Envelheci, mas também rejuvenesci o suficiente para aproveitar muito mais do melhor da vida. E sabe o que descobri? Que nesse mundo doido ainda existem pessoas capazes de surpreender e que elas são quem menos esperamos. Faça hoje o que precisa ser feito! Somos responsáveis também pelo que deixamos de fazer.

Precisaria de outro texto de 15 mil caracteres para agradecer a toda a equipe médica, aos amigos e colegas, familiares e desconhecidos que compartilharam conosco esse momento de nossas vidas. Portanto, vou agradecer a todos por meio do nome de apenas UM, que foi o foco de centenas de pessoas que se mobilizaram para pedir a Ele que levasse Nique de volta para casa: DEUS, MUITO OBRIGADO!

 

E vale lembrar Einstein novamente: “O universo é inexplicável sem Deus”.

Por Davidson Padrão

 

TESTEMUNHO

 

Foi o momento mais difícil da minha vida e ao mesmo tempo foi o momento em que senti mais forte a presença de Deus. Muitas vezes, não entendemos o que Deus quer da gente, não entendemos os desígnios dele, a vontade dele, e queremos fazer as coisas do nosso jeito, tomar as decisões sem consultá-lo. Então, Deus dá um jeito de nos mostrar que estamos errados, e quando entendemos isso, tudo passa a fazer sentido. A doença da Dominique foi um marco na minha vida de várias maneiras. Um marco de fé, de união com a família, de identificação das coisas que realmente têm importância nessa vida e de várias outras coisas. Dois dias particularmente foram os mais difíceis, o primeiro e o quarto dia. No pior momento da minha vida, entendi que Deus estava me dando uma opção. Confiar Nele ou não confiar. E eu escolhi confiar. No quarto dia de internação, quando o médico disse que a situação estava piorando e que a doença estava evoluindo negativamente eu me desesperei e justamente nesse dia eu não dormi no hospital, porque minha filha mais velha também estava doente. Quando cheguei em casa, chorei muito e depois de um telefonema de um anjo que Deus colocou na minha vida, senti

que era o momento da decisão. Então, como eu disse, decidi confiar totalmente em Deus e a partir desse momento tive certeza absoluta da cura da Dominique. Não é que depois desse momento as coisas

ficaram mais fáceis. Não ficaram. Na verdade ela até piorou e precisou mesmo fazer a cirurgia. Mas a certeza da vitória, a certeza da recuperação dela tornou cada minuto suportável. Hoje acredito que

o Deus que eu sirvo, realmente é o Deus do impossível e que ele está pronto para fazer um milagre na sua vida, assim como fez na minha.

 

Carolina Padrão, mãe da Dominique